Ainda me fascino com o desafio, com a descoberta de novas histórias, enredos que me levam para além de suas páginas, que contaminam minha mente, que me deixem com aquela sensação de satisfação, de euforia, por ter arriscado e me surpreendido. Para 2017 me propus a conhecer novos autores, novos gêneros literários, ler obras as quais normalmente não dava chance e preciso confessar o quanto essa experiência tem sido enriquecedora e gratificante. Em especial por essa última leitura - A GAROTA DO LAGO, que é simplesmente... UAU.
Um assassinato brutal abalou a pequena cidade de Summit Lake. A estudante de direito Becca foi violentada e estrangulada dentro de sua própria casa, um fato que chocou a todos os moradores, principalmente por se tratar da filha de um juiz renomado e por ser uma jovem gentil, esforçada e querida por todos. E é exatamente neste ponto em que conhecemos Becca, em seus últimos minutos de vida, durante a agressão e sua morte. E você precisa saber, não é fácil acompanhar, na verdade é agonizante e seu desespero se torna o nosso próprio. E o que resta é a vontade de descobrir o que aconteceu, quem cometeu tamanha crueldade e por quê?
Kelsey está afastada do seu emprego, não por vontade própria, mas por necessidade. Algo aconteceu e ela precisa juntar os pedaços e ser capaz de encarar o mundo fora de suas paredes outra vez. Uma repórter investigativa de sucesso, que já escreveu inúmeros textos e até mesmo um livro. Seu chefe, um homem por quem detém muito carinho, quase como se fosse seu próprio pai tenta protege-la de todas as formas e quando surge um caso em especial, sente que é o momento certo para que ela volte ao trabalho. E é assim que Kelsey conhece o caso de Becca. Designada para cobrir as investigações, Kelsey está determinada a descobrir quem matou Becca, ainda que não exista nenhuma pista, ou até mesmo um único suspeito. E quanto mais a verdade se aproxima, mais ligada a vítima ela se sente e o que era para ser apenas mais um trabalho, se transforma em um processo de cura e libertação.
“Era esta a cara do início do trabalho de campo: conversas com muitas pessoas e obter diversos caminhos de descoberta. Algumas acabariam em becos sem saída, enquanto outras levariam a mais informações, que exigiriam novas investigações. No entanto, se surgissem bastantes caminhos, Kelsey sabia que um deles levaria a algum lugar importante.”
Mesclando passado e presente, Charlie nos leva por um verdadeiro emaranhado, onde nenhuma peça parece se encaixar. A medida que conhecemos Becca e a pessoa que ela era, mais difícil se torna aceitar o que lhe aconteceu – ainda que o narrador tente em alguns momentos “justificar”, ou “atribuir” culpa a própria vítima -, ela é inteligente, esforçada, nutre sonhos, desejos de uma jovem sonhadora que está apenas começando a viver, entretanto ela também oculta alguns segredos e seu comportamento não é sempre o mais exemplar – neste ponto me questionei sobre sua inocência no sentido literal da palavra, na falta de malícia da situação, ou se ela de fato era consciente e explorava alguns pontos para benefício próprio. O que em nada justifica a brutalidade de seu assassinato. E ao mesmo tempo conhecemos Kelsey e todo seu esforço em buscar respostas, principalmente porque ao que tudo indica, tem muita gente tentando deixá-las bem escondidas. Existe resistência por parte da polícia, complicações pela família e muitas teorias a serem comprovadas, uma verdadeira teia de aranha. Se não existe um suspeito, como essa jovem acabou morta? Por onde começar a procurar? Qual direção é a melhor seguir?
“É mais que uma pessoa obcecada. É o que se denomina pessoa insociável organizada. É o padrão de um assassino. Um tipo específico de assassino. Ele é inteligente...”
Serei totalmente honesta. O livro não é perfeito, os personagens poderiam ter sido melhores explorados, o autor poderia ter cavado mais fundo, se aprofundando, alguns pontos são questionáveis e outros ficam apenas subentendidos. A sensação que tive em alguns momentos é que o autor apenas se esqueceu, ou optou por deixar de lado realmente, como se aquilo não precisasse ser respondido, ou até mesmo que tomou o caminho mais fácil. Em contrapartida, seria totalmente hipócrita da minha parte não assumir o quanto fui surpreendida. Toda a trama em si foi uma caixinha de surpresas, os segredos revelados me chocaram e o final me deixou arrepiada e muito triste. Chorei sim, pois meu coração ansiava por um desfecho diferente, mesmo tendo consciência do que a trama em si tratava. Lamentei a vida roubada, as alegrias perdidas e o futuro que Becca jamais irá conhecer e mais uma vez tive a certeza de que ficção e realidade andam lado a lado. Um livro que poderia ser um caso da vida real.
“(...) cada um se cura a sua própria maneira e em seu próprio ritmo. Alguns refletem mais do que os outros a respeito das coisas que enfrentam na vida, e avaliam esses acontecimentos de maneira distinta.”
A GAROTA DO LAGO me arrastou para dentro de si. Me senti a própria jornalista investigativa buscando por pistas, ler nas entrelinhas, tentando adivinhar o que o autor estava ocultando – até pensei em ler a última página, desculpa sou curiosa -, mas nada parecia suficiente, me tornei uma viciada e cada página me deixava ainda mais inquieta, precisava desesperadamente de respostas e elas vão chegando em doses homeopáticas – que tortura. E enfim me dei conta sobre o que o autor realmente quis falar: Sobre as expectativas que depositamos nos outros. Sobre o modo como tendemos a enxergar nas pessoas aquilo que desejamos e não somente a realidade crua. Sobre a fragilidade da mente, da vida, da força dos sentimentos, da obsessão. É uma leitura marcante, dolorosa, crua e que mesmo contendo falhas ganhou nota máxima, pela construção do enredo, pelos cenários ricos em detalhes e pelas emoções despertadas. Eu queria poder falar mais e mais, entrar em detalhes, expor cada cena que ficou ecoando em minha mente, mas isso seria spoiler demais, preciso me conter. Por isso se tiver a oportunidade, leia.
Sem contar que A GAROTA DO LAGO é disparado o meu livro preferido do autor Charlie Donlea. Um thriller policial extremamente trágico, sofrido, melancólico e romanticamente triste. Simplesmente espetacular.
Flávia Di Frota

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