De maneira bastante orgânica, a autora insere diversos conflitos e personagens, de modo que não sabemos quais deles serão essenciais para desvendarmos o mistério. Tudo o que sabemos é que se Eddie escolhe falar sobre esses episódios, tantos anos depois, é porque alguma importância eles têm. Assim, o trágico acidente com a menina no parque de diversões, o misterioso Sr. Holloran (homenagem a “O Iluminado” já que a autora é uma fã de King?), a morte do irmão mais velho valentão de Mickey e o afastamento dele do grupo, Nicky e seus acidentes domésticos, os protestos comandados pelo reverendo (pai de Nicky) contra o trabalho da mãe de Eddie e sua clínica de aborto, a morte do cachorro de Hoppo, são todos eventos de 1986 que se somam aos intrigantes homens de giz que reaparecem em 2016, assim como a volta de Mickey à cidade e a relação de Eddie com sua inquilina, Chloe. Nesse vai e vem, “O Homem de Giz” se mostra aquele tipo de livro envolvente que se você não precisar interromper a leitura, você não interrompe.
“Minha vida foi definida pelas coisas que não fiz, pelas coisas que não disse. Acho que o mesmo acontece com várias pessoas. Nem sempre o que nos molda são as nossas realizações, e sim as nossas omissões. Não necessariamente as mentiras, apenas as verdades que não dizemos.” (TUDOR, 2017, p.138)
O próprio Eddie diz em um dado momento que aos doze anos os seus amigos são o seu mundo, então esse é outro aspecto positivo de acompanharmos os eventos com 30 anos de intervalo. Apesar de nos contar como se tudo estivesse acontecendo naquele momento, Eddie já tem um certo distanciamento dos eventos e dos próprios amigos o que lhe permite enxergar as coisas com maior amplitude.
No final, todas as pontas se amarram e é preciso reconhecer certa audácia da autora em alguns aspectos. Ainda assim, não sei exatamente porque, fiquei querendo algo a mais. Quando terminei a leitura, senti que se tratava daquele tipo de livro que logo cairia no esquecimento, embora durante a leitura eu estivesse 100% envolvida, querendo sempre ler mais um capítulo.
“O Homem de Giz” não é aquele suspense que vai marcar a sua vida, mas você vai curtir cada segundo.
Flávia Di Frota

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